A borboleta ruiva

Uma borboleta ruiva bateu as asas em Paris e me fez – dez anos depois – entrar no curso de especialização em Estudos Lingüísticos do Texto em Porto Alegre. Como pode um fato ocorrido em 1994 ter influenciado a minha matrícula na pós-graduação do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com uma década e um Oceano Atlântico de distância?

A viagem à capital francesa foi a minha estréia como correspondente internacional. Eu tinha 26 anos. Era ainda um “foca”, termo usado pelos jornalistas mais experientes para identificar jovens repórteres. Durante uma semana passei diversos boletins diários para a rádio Gaúcha enquanto representava o Brasil na assembléia de fundação da Federação Internacional de Jornalismo Ambiental.

O evento aconteceu no final do outono francês em um auditório do Palácio da Unesco. Era um local de reuniões internacionais, perto da Torre Eiffel. A sala tinha cabina fixa para tradução simultânea e microfones nas bancadas para todos os 150 participantes de 50 países. Apenas dois brasileiros estavam lá. Eu e uma jovem jornalista nordestina que fazia mestrado em Educação Ambiental em uma universidade de Londres.

Eu estava ansioso com o meu nome na programação oficial. Teria que falar sobre a situação do jornalismo especializado em meio ambiente no Brasil. Os debates aconteciam em inglês e francês, com diálogos truncados pra mim. Procurava ouvir mais do que falar. Na época eu ainda não tinha concluído meu curso de inglês. Preparei um texto para ler antes de sair de Porto Alegre.

Um colega – José Fonseca – do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul, organização não-governamental que eu representava na assembléia da Federação, fez a versão em inglês da minha apresentação. Eu falei no final do primeiro dia da assembléia. Quando eu comecei a ler o texto engoli várias letras. Respirei fundo para afastar o pânico. Ainda bem que falava sentado. Logo o susto passou e pude caprichar na pronúncia.

Todos pareceram entender o meu texto-discurso. Um professor de jornalismo dos Estados Unidos me fez uma pergunta ainda em plenário. Eu sei que respondi. Mas não consigo lembrar da pergunta, e muito menos da resposta. Há um bloqueio na minha memória. Só consigo recordar que logo depois da minha fala terminaram os trabalhos do primeiro dia. O sentimento era de missão cumprida.

Quando eu estava saindo do auditório e caminhava em direção ao corredor principal do Palácio da Unesco ouvi uma voz feminina que perguntava em altos brados: “Tem brasileiro aí?”. Era a correspondente da Veja que vivia em Paris. Regina Scharf tem dupla cidadania – brasileira e francesa – e na época trabalhava na Rádio França e escrevia matérias para a revista da Editora Abril. Ficamos amigos na hora.

Culta e talentosa

Achei a voz da Regina muito gostosa, com dicção firme, meio rouca, bem radiofônica. A ruiva tem um jeito de moleca, o riso fácil, os lábios carnudos e o cabelo longo. Ela é filha de um psicanalista paulistano, culta e com desejo de aventura. Desde a primeira troca de olhares senti que haveria algo significativo entre nós.

A Regina, assim como eu, já usava a Internet naquela época. O e-mail nos manteve em contato. Em março de 1997 nos encontramos novamente em outro evento internacional sobre meio ambiente, desta vez no Rio de Janeiro. Ela tinha saído da Veja e voltado para a Paulicéia Desvairada. Estava trabalhando no Instituto Socioambiental de São Paulo, uma das principais ONGs ambientalistas do Brasil.

Logo depois deste evento no Rio de Janeiro a Regina Scharf foi trabalhar na editoria de meio ambiente do jornal Gazeta Mercantil. Lá ela conheceu um jovem e talentoso jornalista mineiro que trabalhava nos cadernos de final de semana. Sergio Vilas Boas escrevia perfis brilhantes de escritores e de outros expoentes da cultura.

A Regina, culta e talentosa, ficou fã do Sergio. Em 2003, ele apresentou para a Summus Editorial um projeto de uma coleção de livros chamada Formação & Informação. A idéia dele era falar das especialidades do jornalismo para profissionais da área e também para o público leigo. A primeira edição trataria de meio ambiente.

Para pensar os temas e os possíveis autores dos artigos do livro Formação & Informação Ambiental o Sergio convidou a Regina. Fui indicado pela minha amiga para escrever o capítulo sobre o jornalismo e a ecologia urbana. Ela me mandou um e-mail para avisar que o Sergio, que eu ainda não conhecia, ia me ligar para fazer o convite.

Uma semana depois do e-mail da ruiva o Sergio Vilas Boas me ligou. Ele me propôs um artigo entre 60 e 70 mil caracteres sobre cidades. Nunca esqueço da frase dele. “É bom ter bastante espaço para escrever e desenvolver bem as nossas idéias”. Eu concordei, sem ter muita noção do que fazia.

Pedi dois dias para pensar no convite. Eu estava, na verdade, mais uma vez com medo. O mesmo medo que tomou conta de mim durante a minha fala no Congresso em Paris. Consegui enfrentá-lo e aceitei o desafio do texto longo e dissertativo. O Sergio me deu dois meses de prazo para escrever o artigo. Gastei a maior parte do tempo para juntar todo o material possível sobre o tema.

A escrita fiz em uma semana. O meu artigo Cidades em Mutação foi entregue no prazo e com 65.524 caracteres. Para dar uma idéia mais precisa do tamanho, este texto aqui que você está lendo tem 12.322 caracteres. Sergio gostou do meu trabalho e fez algumas sugestões. Eu reescrevi as partes sugeridas e consegui deixá-lo ainda mais preciso. A reescrita melhorou a versão final. Acabei gostando muito da experiência dolorida de, pela segunda vez, escrever um texto longo.

A primeira vez foi no final do curso de jornalismo, em 1991. A minha monografia tinha 104 páginas e o texto foi muito elogiado pelo orientador e pelos professores da banca. Durante a faculdade eu me preparei para trabalhar em jornal e revista. Esperava escrever longas e saborosas reportagens. Mas acabei no rádio e no rádio fiquei por uma década. O discurso radiofônico influenciou meu texto.

Os sons marcaram meu modo de dizer. A minha preocupação era dar elementos para a imaginação dos ouvintes. Quando eu escrevia para o rádio tinha que fazer o ouvinte “enxergar” a notícia com os ouvidos. Frases na ordem direta, repetições da mensagem principal no início e no final do texto, vocabulário simples. Coisas do rádio. Diferente do estilo texto longo que exige um domínio mais refinado do idioma pátrio.

Aventuras textuais

Confesso que o mundo do rádio me encantou. Comecei a ganhar prêmios, fazer viagens, ficar conhecido Brasil afora. Até que tudo virou rotina. Foi ficando insuportável a convivência diária com a frustração de nunca ter trabalhado em um grande jornal ou revista. Era isso que eu imaginava que faria quando estudei jornalismo na PUC-RS.

Uma luz de esperança se acendeu quando conheci o Sergio Vilas Boas. Enquanto escrevia o meu artigo eu procurava saber quem era o meu editor. Descobri eufórico que ele fazia parte de um grupo que busca resgatar a narrativa no jornalismo brasileiro através do uso das técnicas literárias.

Quando eu estudava jornalismo tive muita vontade de fazer a oficina literária do Luiz Antônio de Assis Brasil. Fiquei com medo – sempre ele – de não ser aceito, medo de descobrir que nunca poderia escrever bem. Na época eu acreditava piamente que um dom especial era necessário para escrever. Não percebia o esforço, o suor e a dedicação que fazem parte do ato da escrita e, principalmente, da reescrita.

Este medo de buscar o bom texto é diferente do medo que senti de falar em Paris ou do medo que senti antes de aceitar o convite para escrever sobre problemas e soluções urbanas. Ele é bem mais complexo. Assim como a coragem para enfrentá-lo. Ela só deu sinal de vida depois da empatia com a militância narrativa do Sergio, do convite para escrever um texto longo, e de ser lido e publicado pelo editor talentoso.

Em junho de 2004 conheci pessoalmente o Sergio Vilas Boas. Com o nosso livro nas mãos, passamos um dia inteiro dando entrevistas em Porto Alegre. Entre idas e vindas, conversamos muito. Falei pra ele dos meus medos literários. Percebi que havia chegado a hora de reencontrar o meu desejo juvenil de mergulhar em aventuras textuais. Era preciso  coragem para enfrentar o medo de ser lido. A angustia de me expor.

O meu primeiro artigo longo escrito, avaliado e publicado me mostrou  o próximo passo: abrir espaço na minha rotina de vida para voltar a estudar. Afastei-me do Núcleo dos Ecojornalistas do Rio Grande do Sul e da moderação eletrônica da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. Abri mão da militância ecológica para conhecer mais e me esbaldar textualmente olhando sem medo para os meus medos.

O espaço-tempo para estudar estava aberto. Faltava descobrir onde e o quê eu estudaria. Estava entre Comunicação e Letras. No entanto, sempre olhei sem muita empolgação para os cursos de pós-graduação da minha área de trabalho. Por influência do movimento ecológico, tento olhar para o mundo com uma visão sistêmica. As partes e o todo. Beber em outras fontes é fundamental para um jornalista expandir conhecimentos.

Esforço da escrita

Olhei o site da Faculdade de Comunicação da Ufrgs. Estava fora do ar. Seria outra borboleta movimentando as suas asas? Pulei para a página virtual do Instituto de Letras. Encontrei a notícia do curso de especialização em Estudos Lingüísticos do Texto. Era isso que eu queria. Tinha tudo a ver com o meu trabalho e com os meus desejos. Identifiquei a chance de começar a compor e tocar com partitura, sem perder a sensibilidade do ouvido.

A Regina resolveu borboletear pelo Palácio da Unesco à procura de brasileiros no encontro de jornalismo ambiental em Paris. Ali me encontrou. Ficamos amigos. Depois ela conheceu o Sergio em São Paulo. E o Sergio pediu a ajuda da Regina para montar um livro sobre jornalismo ambiental. A ruiva me indicou. Eu conheci o Sergio.

As conversas com ele e a leitura de textos clássicos do jornalismo narrativo – Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer – me convenceram que valia à pena investir no esforço da escrita. Como gosto de ter uma visão panorâmica dos fatos, achei que começar compreendendo os pensamentos que existem sobre o texto iria me deixar mais tranqüilo para enfrentar os demônios da escrita que habitam em mim. Acertei.

Devo tudo isso à borboleta ruiva. O Efeito Borboleta é um conceito da Teoria do Caos desenvolvido por um matemático e meteorologista chamado Edward Lorenz. O nome técnico é “dependência sensível das condições iniciais”. Em uma explicação grosseira significa que o movimento das asas de uma borboleta pode alterar o resultado final de um determinado sistema.

Em 2004 foi lançado um filme muito interessante inspirado explicitamente neste conceito do meteorologista norte-americano. Inclusive o nome é Efeito Borboleta e já está disponível em cópia legendada no Brasil. Evan, interpretado por Ashton Kutcher, consegue voltar ao seu corpo de criança para resolver problemas do passado. Cada vez que ele faz isso, no entanto, acaba desencadeando uma nova cadeia de acontecimentos. E novos problemas surgem. Eu também resolvi arriscar. Bati minhas asas.

Dia desses a ruiva me ligou. Ela queria contar que estava largando o emprego de consultora do Banco Real em São Paulo para morar nos Estados Unidos com um californiano que ela conheceu na Internet. Não fiquei surpreso. A Regina gosta de aventuras assim. Aproveitei para falar do filme e agradecer o farfalhar das asas da borboleta, naquele final de tarde em Paris.

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2 comentários em “A borboleta ruiva”

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