O detetive da poluição

A luta de Flávio Lewgoy contra os resíduos tóxicos da modernidade

Por Roberto Villar Belmonte

Parecia um estádio de futebol. Trezentos funcionários da fábrica de celulose Riocell lotavam o plenário da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, no centro de Porto Alegre, para acompanhar a votação de um relatório do então deputado e jornalista Sérgio Jockymann. Em jogo estava a autorização para duplicar a indústria mais polêmica da região. A “partida” foi no dia 2 de dezembro de 1992, seis meses depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Os ecologistas entraram em campo com apenas um jogador, o mais preparado da equipe. Era um senhor de óculos, de quase setenta anos, que em 1983 já havia sido condecorado pelos parlamentares gaúchos com a Medalha do Conservacionista.

O geneticista aposentado Flávio Lewgoy foi muito vaiado e até ofendido pela claque de empregados. Mas não arredou pé do circo armado pela Riocell. Estava convicto de que a ampliação do processo de branqueamento da celulose com derivados de cloro agravaria a saúde ambiental do lago Guaíba, onde os resíduos da tal empresa ainda são despejados. O clima nas galerias, transformadas em arquibancadas, já indicava que o projeto seria aprovado, como realmente foi. Mesmo assim, o ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural permaneceu lá, até o fim.

Flávio Lewgoy está com 80 anos, mas ainda recorda detalhes do dia em que enfrentou sozinho, e de peito aberto, os militantes da indústria de celulose no início da década passada. “Eu nunca tive medo deles”, garante o ex-professor de Genética que até hoje acompanha com grande interesse as ameaças químicas ao Guaíba, participa de reuniões públicas, quando o tema é meio ambiente e saúde, estuda artigos científicos na Internet e troca informações, por e-mail e telefone, com outros cientistas e ecologistas.

– Eu sabia que nós não ganharíamos e que estaria em minoria no plenário. Só não imaginei que estaria sozinho. Resolvi agüentar o que eles iam me dizer. Como dizia um filósofo antigo, pedras podem quebrar os meus ossos, mas palavras não. Durante a votação eu escutava vaias e vozes hostis, mas insultos pessoais não. Até que na saída eles fizeram eu passar por um corredor polonês. Então uma moça correu atrás de mim gritando ofensas. Eu me descontrolei e disse barbaridades pra ela. No fim, a minha muralha caiu.

A luta contra a poluição da Borregard, como inicialmente era chamada a fábrica norueguesa de celulose instalada em 1972 no município de Guaíba, bem na frente de Porto Alegre, mobilizou intensamente a população da capital gaúcha na primeira metade dos anos 1970, em plena ditadura militar. Com aplausos generalizados, a fábrica permaneceu fechada pelas autoridades de 6 de dezembro de 1973 a 14 de março de 1974. Na época, o cheiro de ovo podre lançado pelas chaminés da empresa galvanizou a ojeriza da opinião pública. Nacionalizada, passou a ser chamada de Riocell, numa tentativa de limpar a imagem fétida da indústria. Em 2003, trocou novamente de dono e de nome. Agora é Aracruz Unidade Guaíba.

Maquiagem verde

Com filtros instalados para reduzir o fedor e a duplicação aprovada pelos deputados, o projeto de ampliação foi sepultado pelo próprio mercado internacional de papel e celulose que andava em baixa na época. Em 1995, uma nova polêmica. Eu descobri em uma das gavetas da Fundação Estadual de Proteção Ambiental, o órgão de meio ambiente do Rio Grande do Sul, um laudo que mostrava que a Riocell ainda lançava dioxinas[1] no Guaíba. Em suas publicações em inglês, a empresa omitia esta informação.

Quando obtive a cópia do laudo, procurei o professor Flávio Lewgoy para que ele me ajudasse a traduzir as informações altamente especializadas do estudo realizado pelo laboratório do Instituto de Águas da Universidade de Aachen, na Alemanha. A dioxina é considerada a mais tóxica das substâncias químicas já produzidas pela humanidade. Ela surge como sub-produto da reação de matéria orgânica com o cloro (ou algum derivado), utilizado no branqueamento da celulose e em outros processos industriais.

O tema ainda era pouco conhecido no Brasil. Mas eu costumava participar de diversas reuniões do movimento ecológico sobre a presença das dioxinas no Guaíba. Ao me deparar com o tal laudo, pressenti que algo de errado havia. Lembrei na hora do Lewgoy. Levei os documentos no apartamento dele e assim consegui entender o que tinha em mãos. Provas concretas de um crime ambiental. O jornal de bairro Oi! Menino Deus publicou a reportagem especial com a manchete: “O veneno da Riocell”.

Na época, a direção da fábrica havia me assegurado que desconhecia a presença das dioxinas nos seus efluentes. Mas Flávio Lewgoy me ensinou a interpretar a informação que eu havia obtido. As tais dioxinas (cancerígenas) são medidas em unidades muito pequenas, na ordem de um milionésimo de milhão (10 na potência menos 12) de gramas por quilo de efluente, o resíduo que sobra no processo de branqueamento da celulose. Estas pequenas escalas fascinam o ecologista há várias décadas.

A nona cifra decimal

Foi o acaso que abriu a porta do mundo ambiental para Flávio Lewgoy, quando, no final dos anos 1960, ele descobriu A Nona Cifra Decimal. Tratava-se de um livro russo, traduzido para o espanhol, encontrado em uma livraria do centro de Porto Alegre especializada em publicações da extinta União Soviética. Além das obras políticas sobre marxismo, também eram vendidas neste lugar, vigiado por espiões militares, publicações técnicas e de divulgação científica.

– Este livro tinha informações fantásticas. Eu fiquei fascinado. Falava de uma água milagrosa usada por um sacerdote ortodoxo. Ele colocava moedas de prata na água e dava para os doentes beber. As quantidades infinitesimais de prata que passavam para a água eram bactericidas. Falava também de um ferro que nunca enferrujava na Índia. Era uma espécie de aço inox natural graças à presença de elementos traço, tudo abaixo da nona cifra decimal. Comecei então a me interessar por estes metais, que existem em pequenas quantidades, e que estão na composição de todos os seres vivos.

Como exemplo de metal necessário à vida, Lewgoy cita o zinco. Sem ele não há reprodução do DNA. E também o cobalto (vitamina B12), uma espécie de catalisador da usina de força da célula, a mitocôndria. Mas o seu preferido sempre foi o selênio. Durante vinte anos, ele conduziu estudos com uma linhagem de moscas drosófilas, popularmente conhecidas como moscas das frutas, para entender o que ocorria quando diferentes quantidades de selênio interagiam com esses insetos. Cada mosquinha, como aquelas que aparecem nas bananas maduras, tem um ciclo de vida de 30 dias. Imaginem o trabalho que deu fazer a pesquisa durante duas décadas.

– Eu sabia que o selênio era tóxico, mas ele só é tóxico em quantidades maiores do que as necessárias. A ausência produz sintomas de deficiência graves. Redescobri, também, o que pesquisadores do século 19 já tinham verificado: que pequenas quantidades de veneno podem ser benéficas. É um efeito curioso, chamado hormese. Ele pode estimular as defesas orgânicas e otimizar o organismo.

A paciência lhe rendeu muitos ensinamentos. “Eu aprendi muita coisa que pude aplicar aos temas ambientais”, reconhece Flávio Lewgoy. O aprendizado, que quase virou uma tese de doutorado, levou o geneticista a ministrar aulas, a partir de 1990, de Ecogenética, tema que depois foi incorporado por outras disciplinas do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde ele lecionou de 1959 a 1992.

– Só a mutação[2] não pode explicar tudo o que acontece. Tem uma parte do genoma que sofre influência do meio ambiente, e esta mudança é constante. Ela passa para a descendência e tem uma ligação direta com as alterações ambientais.

Por um senso ético

Depois da descoberta do livro russo, Flávio Lewgoy deparou-se em 1970 com uma revista que mostrava a composição elementar do carvão e os metais pesados que existiam no mineral. Não teve dúvidas. Começou a denunciar na imprensa o potencial poluidor das jazidas gaúchas. Nesta época, José Lutzenberger estava criando com um grupo de apoiadores a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). A ecologia ganhava generosos espaços nas páginas dos jornais amordaçados pela censura.

Durante a ditadura militar, Lewgoy era contestado por pessoas que conheciam mais os meandros do Guaíba do que ele. Era o caso do velejador e diretor do Departamento Municipal de Água e Esgoto de Porto Alegre (DMAE), o húngaro Laslo Bohm. Imitando a voz do engenheiro estrangeiro, conta que ele lhe dizia que o lago “não estava tão poluído assim”. O comunista teórico e cientista não lhe dava ouvidos, pois o adversário “era da situação”.

– Entrei na luta ambiental por um senso ético. Sempre fui uma pessoa sensibilizada pelas injustiças. De repente eu comecei a compreender, como químico, que talvez a minha profissão não fosse aquilo que se apregoava: “coisas melhores para viver melhor”. Continuam sendo produzidos compostos químicos sob todas as formas para usar na vida doméstica, na indústria, nos alimentos, em metalurgia, em informática, em plásticos, em papel, em tudo que tu possas imaginar. Mas muitos deles ainda não têm uma avaliação se eles são cancerígenos, mutagênicos, causadores de problemas ambientais.

Lewgoy operava em faixa própria e só ingressou formalmente na Agapan no ano de 1975. Não foi, portanto, um dos fundadores da entidade que presidiu entre 1980 e 82. Como era químico de formação e cientista da área de Genética na UFRGS, as suas manifestações sempre atraiam grande atenção dos militantes e também dos jornalistas. O seu mentor no movimento ecológico foi José Lutzenberger, que logo tornou-se uma personalidade internacional e foi ficando sem tempo para cuidar da Agapan.

– O Lutzenberger não parava mais em Porto Alegre. Sempre atormentado e com os pés nos estribos dos aviões, como ele dizia. Um belo dia uma comitiva de dirigentes da Agapan veio até minha casa me pressionar para eu assumir a presidência da entidade. Eu acabei aceitando. O Lutz ficou magoado comigo. O Washington Novaes uma vez me encontrou em Brasília e quis saber porque havíamos dado um golpe no Lutzenberger e tirado a presidência dele. Expliquei que não foi nada disso. Tanto que continuamos amigos.

Outra bandeira de luta dos ecologistas da Agapan foram os venenos químicos usados na agricultura convencional, que vivia na época o boom da soja. “Quando comecei a dar entrevistas contra os agrotóxicos, em meados de 1970, senti medo, pois estava sumindo gente”, recorda Lewgoy. A sua mulher, Bella, atualmente com 75 anos, sempre ficava apreensiva com a militância do marido. “Mas eu explicava para ela que eu era assim mesmo e não iria mudar. Estamos casados desde 1952”.

– Nos diversos debates com a Riocell, me chamavam de Dom Quixote, e perguntavam se eu achava que iria mudar alguma coisa combatendo moinhos de vento. Me chamavam de garoto propaganda porque eu aparecia na imprensa. Garoto propaganda do quê? Da desgraça? Eu não tenho muito jeito para me defender de pessoas que me atacam. Não tenho essa vivacidade. A minha inclinação é outra.

Primo de um famoso “vilão”

A fundamentação científica das colocações de Flávio Lewgoy impressionava até o seu primo distante José Lewgoy (1920-2003), o ator famoso, natural de Veranópolis (RS), que fez fama no teatro, no cinema e na televisão.

– Uma vez ele me perguntou sobre as questões ecológicas que eu defendia nos anos 1970. Eu expliquei pra ele que eu falava e as pessoas me escutavam. Ele ficou muito impressionado com isso. O Zé tava toda hora por aqui. Ele tivera formação de contabilista e era um ótimo desenhista. Nós temos alguma semelhança física. Mas ele era mais feio do que eu. Tanto que ele sempre fazia papel de vilão, nunca de mocinho. Ele era um ator muito bom, com mestrado em arte dramática em uma universidade norte-americana.

O ecologista Lewgoy sempre morou nas imediações do Bom Fim, bairro de tradição judaica em Porto Alegre, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Honorário em 1982. Título que ele, até hoje, não entende porque ganhou, pois nasceu na capital gaúcha. Quando perguntei se ele se considerava um judeu, em função das origens familiares, ele definiu a si próprio como um outsider.

– Não sou muito amigo de rituais. Eu fiz o Bar Mitzvá, a maioridade do menino judeu. Tive que aprender algumas rezas. Também fui circuncidado. Eles nem esperam para ver o tamanho e já cortam um pedaço… Eu não freqüento sinagoga. Uma vez por ano, no Iom Kipur, eu vou com a família. Mas não entendo as rezas. Eu sou judeu russo, grupo que fala o Idish, um alemão medieval com outros aportes. Aprendi apenas algumas palavras e frases.

O judeu outsider de origem russa, filho de Débora Axelrud e de um representante comercial, Willy Paulo Lewgoy, ex-aluno do colégio estadual Júlio de Castilhos, recorda que o pai sempre incentivou a sua curiosidade. Com 10 anos, já tinha em casa uma salinha para fazer as suas “misturadas”, uma espécie de avant-première dos dois laboratórios que ajudaria a criar, no Departamento de Genética da UFRGS e na polícia gaúcha.

– Eu me divertia com aquilo. Fui incentivado a estudar ciência desde pequeno. O meu pai aprendeu, nos sete anos do secundário no Julinho[3], coisas que hoje não se aprendem mais, como inglês, francês, alemão e latim. Ele não era muito amigo das ciências, mas aprendeu bem línguas. E, percebendo o meu interesse científico, incentivava as experiências caseiras.

Formado em Química Industrial em 1948, com o incentivo do pai poliglota e comerciante, foi o amigo de colégio Antônio Rodrigues Cordeiro, que viria a ser um importante cientista, quem convenceu Lewgoy, em 1951, a ingressar no emergente mundo da Genética. Entre 1952 e 1954, ele conseguiu, a partir do conselho do ex-colega, uma bolsa de pesquisa. Em 1958, foi contratado como instrutor de ensino da UFRGS, e introduziu na então seção de Genética técnicas usadas na Química, como a espectrofotometria, cromatografia e fluorescência. Entre 1959 e 1960, estudou na Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos, onde foi aprender novas técnicas de laboratório como bolsista da Fundação Rockefeller.

Indícios para prender bandidos

Além de professor de Genética, Lewgoy também foi perito químico do Instituto de Criminalística. Durante 30 anos, ele desvendou crimes de todo tipo. Já no início da carreira de perito, ajudou a prender um maluco que explodia bombas em Porto Alegre no início dos anos 1950. O químico novato da polícia técnica descobriu o tipo de pólvora, pouco conhecida e bastante instável, que estava sendo utilizada. A partir desta informação, o criminoso foi pego. Ex-aluno do então pré-técnico do Colégio Júlio de Castilhos, o trabalho do jovem recém formado em Química Industrial na UFRGS era colher indícios materiais para prender os bandidos.

– Eu gosto muito de filmes policiais, quando são bem feitos. Eu também lia muito Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. Mas eu acho os métodos do Sherlock Holmes infalíveis demais, feitos para o leitor não descobrir. O crime real não é assim.

Após 30 anos de serviços prestados à força policial, Flávio Lewgoy olha pra trás e lembra com orgulho que foi o responsável pela prisão e soltura de muitas pessoas, mas principalmente pela criação do laboratório de química forense. Ele recorda que começou do zero e criou tudo a partir do experimentalismo.

Não eram os crimes comuns que mais empolgavam o perito policial e geneticista, mas sim as lutas que diziam respeito à poluição química. Pois nestes combates ele achava que tinha coisas importantes a dizer. Depois da primeira denúncia ecológica que fez, sobre o potencial poluidor do carvão gaúcho, participou desde o início na briga contra a poluição atmosférica e hídrica da Borregard/Riocell/Aracruz. Outro desafio enfrentado e vencido foi o anúncio da construção de um Pólo Petroquímico águas acima de Porto Alegre no final dos anos 1970.

Os resíduos tóxicos do empreendimento, segundo se pretendia, de início, deveriam ser lançados no lago Guaíba através de um “tubinho”. Houve muitos protestos. Então propuseram um “tubão” para realizar a descarga na Lagoa dos Patos. A grita foi tão grande que gerou a construção de uma central de tratamento de efluentes, hoje motivo de orgulho dos petroquímicos. Foi também por esta época que restos de agrotóxicos começaram a aparecer no Guaíba. Daí nasceu em 1982, com a ajuda do perito-geneticista, a primeira legislação estadual para regular o uso dos venenos agrícolas, que acabou inspirando a legislação nacional.

– Eu não tenho uma visão sentimental do ambiente. Eu vejo o lago como um patrimônio natural. O Delta do Jacuí[4] é um manancial para Porto Alegre. O Guaíba já estava em estado muito ruim nos anos 1970, hoje está pior. No entanto, ele ainda não é um caldo podre. Tem futuro. Rios em estado pior já foram recuperados. Eu nunca fui banhista. Mas o que me dói é ver este manancial aos poucos se convertendo em uma massa d’água que talvez um dia não tenha mais condições de uso.

Danificar o Guaíba pode?

Mesmo com 80 anos, Flávio Lewgoy ainda faz questão de alertar que a presença de organoclorados, gerados pela indústria e pela cloração da água potável, é grande no lago Guaíba. Meio resignado, o ex-perito policial constata: “O ambiental é um crime diferente. Em geral, tu sabes quem é o criminoso. O difícil é botar ele na cadeia. É crime, mas ninguém vai para a cadeia. Tu conheces alguém que foi preso no Brasil?”.

– Uma vez eu perguntei aos técnicos da Riocell porque eles não utilizavam novamente a água das estações de tratamento de efluentes. Me disseram que ela danificaria os equipamentos da fábrica. Mas danificar o Guaíba pode? Me responderam que eles estavam dentro das normas, poluíam dentro da lei. O que eles botam de efluente dentro do lago não é brincadeira, são dezenas de quilos diários de organoclorados.

Após tantos anos de militância ecológica, Flávio Lewgoy acredita que a dioxina talvez seja o menor dos problemas do lago Guaíba. Os demais organoclorados são bem maiores, pois até o tratamento da água gera estes poluentes. Mas não clorar seria muito pior.

– Temos que nos conformar com dezenas de casos anuais de câncer por causa da cloração da água. Do contrário, teríamos  epidemias de doenças de veiculação hídrica. No entanto, acho que o DMAE poderia buscar outras alternativas, como o uso do carvão ativado ou do ozônio.

Quero ter um blog

Flávio Lewgoy ainda é um atento observador das questões ambientais. Ele passa as madrugadas consultando artigos científicos, que acessa pelo Portal de Periódicos da Capes, e escrevendo e-mails no teclado azul do seu computador, que tem uma tela plana com uma câmera instalada e uma potente impressora. “Eu imprimo muitos artigos. Ainda prefiro ler no papel”, revela um pouco constrangido. O professor aposentado não sabe como vivia antes sem a Internet, que aprendeu a usar com o filho mais moço, Bernardo, de 42 anos, professor de Antropologia na UFRGS. O próximo projeto do internauta de 80 anos, que às vezes vê o dia clarear enquanto navega usando o browser Mozila, é criar o seu próprio blog.

O escritório de Flávio Lewgoy ocupa um quarto em seu apartamento de classe média. A mesa do computador é cercada por estantes cheias de livros, enciclopédias e muitas pastas com documentos e artigos científicos. Ele é um classificador de informações. Este espírito científico se revela nas dezenas de pastas de mensagens criadas no Outlook Express, o programa de e-mails da Microsoft que utiliza. Ele aproveita as novidades que encontra e interpreta nos artigos científicos para escolher os seus suplementos para retardar os efeitos da velhice.

– Eu mesmo seleciono os meus remédios. Tomo apenas dois medicamentos feitos por laboratórios, aspirina e paroxetina, que me fez muito bem. Resolveu a minha depressão.

Além da questão ambiental, Flávio Lewgoy faz questão de dedicar bastante tempo também aos seus cinco netos que até têm permissão de usar o computador do avô com uma condição: desinstalar os jogos depois de brincar. A mais velha, Clarissa, já está com 20 anos e estuda psicologia na PUCRS, Paulo tem 16 anos, Eduardo, 15 anos, Daniel, 12 anos. A mais nova é Débora, com 10 anos. Flávio e Bella tiveram quatro filhos, além de Bernardo, o professor de Internet do pai, a veterinária Ana Beatriz, de 53 anos, que trabalha na Fundação Estadual de Proteção Ambiental, a publicitária Suzete, de 48 anos, e Henrique, 45 anos, auditor do Tribunal de Contas do Estado.

O ambientalismo já é histórico

Após 36 anos de envolvimento com a luta ambiental, Flávio Lewgoy avalia que o ambientalismo teve o seu apogeu nos anos 1970 e parte dos 80. Com a democratização, com a competição de outros movimentos que estavam só esperando a vez, abafados pela ditadura, os ecologistas passaram a disputar espaço com os outros. Muita gente não se conformou com isso, reconhece, mas ele entendeu perfeitamente.

Tanto que em entrevistas recentes andou fazendo o que ele classificou de “um pouco de humorismo” dizendo que o ambientalismo, na verdade, não existe mais. Isto ocorre, na avaliação do ex-presidente da Agapan, porque os ecologistas conseguiram todas as vitórias que queriam. Todas as leis foram instituídas, as melhores do mundo. O pessoal ainda larga lixo na rua, reflete Lewgoy, mas não é uma coisa politicamente correta. E todo mundo fica furioso quando vê alguém com uma moto-serra para cortar uma árvore, o que antes não acontecia.

Há séculos existem os códigos civil e penal dizendo que não se pode roubar, fazer fraude, falsidade ideológica. Mas estes crimes continuaram, destaca Lewgoy. O ambientalismo também está todo nas leis. “Pararam de desmatar? Não pararam. Na verdade, as ONGs fazem o papel de polícia paralela. O ambientalismo já é histórico”.

– A minha frustração é com os governos federal e estadual, que estão relegando a um papel secundário o meio ambiente. A Marina Silva não, ela é uma heroína moderna. Mas está isolada. E faz o que pode. Tem gente que acha que ela deveria ter deixado o governo Lula como protesto. Eu acho que não.

O Conselho Estadual do Meio Ambiente no Rio Grande do Sul virou uma espécie de feudo da indústria e dos pecuaristas, setores que não ligam muito para o meio ambiente. Eles nunca estiveram fora do governo. Em sucessivas administrações, eles sempre foram gente amiga do andar de cima. Mas é uma continuação mais cautelosa, maquilada. Ninguém te diz hoje que meio ambiente é fantasia.

Concordo que não se pode ser radical. Os empregos são importantes. É preciso que haja uma convivência. Um dos paradigmas é o desenvolvimento sustentável. É uma piada. Desenvolvimento é crescimento, é como um tumor canceroso.

O planeta está sendo comido de uma maneira furiosa. O que não está sendo devastado hoje? Qualquer ecossistema, florestas no Brasil, na África, na Ásia, onde tiver florestas, elas estão sendo transformadas em madeira e carvão. O planeta está ficando sem a cobertura verde. Os mares, as terras de cultivo. Eu não sei como ainda tem tanto peixe, pois os mares estão cheios de poluição, produtos químicos.

Na atmosfera, existem níveis espantosos de gases de efeito estufa, gases que demolem a camada de ozônio. Realizam reuniões das Nações Unidas, bloco disso, bloco daquilo, mas sempre termina da mesma forma. Eles assinam um acordo que não obriga ninguém a cumprir. Sempre tem um prazo, e no fim nada acontece.

O veículo está descendo a lomba sem freio, onde vai parar ninguém sabe. A questão não é mais se vai acontecer, mas quando. O estrago que ele vai fazer ninguém sabe, mas não será pequeno. E já está acontecendo. Estes furacões, tempestades de areia, gelos milenares derretendo, neves do Kilimanjaro, Pólo Sul, tudo sendo alterado. Estamos assistindo só o começo. Quando o nível do mar subir, partes de Porto Alegre poderão ficar embaixo d’água.

Processo ao-ao-ao

O Rio Grande do Sul, na opinião de Flávio Lewgoy, deveria ter um laboratório para analisar dioxinas. Ele lamenta que até análises mais baratas não sejam realizadas para detectar a presença de metais pesados nos alimentos. Também não há controle dos resíduos de agrotóxicos, hormônios e antibióticos. Saudoso, lembra que o seu mentor ecológico, José Lutzenberger, costumava dizer que se os frigoríficos não matassem os frangos, eles morreriam sozinhos, de tanto remédio que recebem.

Acostumado a enfrentar a burocracia ambiental para obter informações sobre empreendimentos poluidores, Flávio Lewgoy aprendeu a conviver com o que é chamado de “processo cachorro”, quando um burocrata despacha para o outro e fica num eterno ao-ao-ao. Lutas dentro do governo foram várias na sua militância. A partir dos anos 1980, o campo de combate dos ecologistas mudou. Eles passaram a participar de conselhos, abastecer o Ministério Público com informações e acompanhar de perto o trabalho parlamentar.

Enfrentar o deboche dos poluidores virou rotina na vida de Flávio Lewgoy. A experiência de 1992 talvez tenha sido a mais traumática, mas não foi a única. Quando o ecologista ousou denunciar a presença de aflotoxinas (fungos) no milho, também foi contestado e ridicularizado. O professor aposentado de Genética, no entanto, não desanima. Com fala mansa e pausada, ele garante que “já está acostumado” com esse tipo de reação. E segue dedilhando, madrugada afora, o seu teclado azul.


[1] Existem 75 dioxinas, das quais sete são tóxicas. A mais perigosa delas, encontrada em 1994 no efluente da Riocell, é a 2,3,7,8 – Cl4DD, chamada de Tetra-cloro dibenzo dioxina. Elas são cancerígenas, hidrofóbicas (permanecem pouco tempo na água) e concentram-se em tecidos adiposos de seres vivos.

[2] A mutação é um processo de modificação, casual ou induzida, na informação genética. Segundo os neodarwinistas, ela seria a origem da variação genética existente.

[3] Julinho é como é chamado em Porto Alegre o Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Fundado em 1900, sempre esteve na vanguarda política, com forte atuação dos movimentos estudantil, ecológico e de defesa da escola pública.  Neste colégio, onde estudaram o ecologista José Lutzenberger, o jornalista Marcos Faerman,  o escritor Moacir Scliar e outros gaúchos ilustres, nasceu o primeiro Centro de Tradições Gaúchas (CTG), criado por Barbosa Lessa e Paixão Cortes.

[4] O Parque Estadual Delta do Jacuí, localizado na frente de Porto Alegre, é formado por 28 ilhas e pelas águas dos rios Jacuí, Caí, Gravataí e Sinos que deságuam no lago Guaíba. O local, que funciona como um banhado, é um refúgio de espécies em extinção como o jacaré-do-papo-amarelo, lontra e gato-do-mato-grande, além de mais 17 espécies de répteis, 24 de anfíbios, 193 de aves e 78 de peixes (alguns já desaparecidos).

3 comentários em “O detetive da poluição”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s