A coesão textual frente à regra jornalística da não-repetição de palavras

A coesão textual frente à regra jornalística da não-repetição de palavras[1]

Roberto Villar Belmonte[2]

Resumo: A partir do exame do texto de quatro reportagens premiadas sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, este artigo mostra como a repetição de palavras aparece em textos considerados de excelência. A redação jornalística é aqui analisada através da ótica da Lingüística Textual e da Lingüística de Corpus. A observação estatística do corpus foi feita com apoio do programa WordSmith Tools. O padrão revelado pelas estatísticas indica que a repetição de palavras não é um fenômeno aleatório e que, portanto, a regra de redação jornalística que desaconselha as repetições pode ser relativizada.

Abstract: From the study of four award-winners news stories on Atlantic Forest biodiversity, this article shows the use of words repetition in texts of excellence. The journalistic writing is examined with two points of view: Text Linguistic and Corpus Linguistic. The statistics observation was made with the software WordSmith Tools. The standard disclosed indicates that the words repetition is not a random phenomenon. Therefore, the journalistic writing rule that dissuades the repetitions can not be considered as a dogma.

Introdução

A Lingüística Textual – que descreve e explica os mecanismos constitutivos de um texto – pode enriquecer a prática da redação jornalística. Regras de redação de notícias são ensinadas nas faculdades de jornalismo e reforçadas cotidianamente nas redações. Cada veículo impresso de comunicação de massa (jornais e revistas) adota um manual de redação para orientar a escrita de seus repórteres e editores. Entre os mais consagrados estão os manuais da Editora Abril e dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo.

Uma regra, considerada básica nas faculdades, está presente nestes manuais: a não repetição de palavras. Não há, porém, um critério objetivo que diga ao jornalista quando é possível repetir palavras, e nem quando é necessário repetir palavras. O aconselhado costuma ser o bom senso do redator. A meu ver a compreensão dos mecanismos da coesão textual pode ajudar a modular o uso da repetição de palavras nos textos jornalísticos.

A partir da análise de quatro reportagens premiadas sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, este artigo mostra como a repetição de palavras aparece em trabalhos considerados de excelência. Neste estudo são observados os elementos lingüísticos que fazem referência ao tema principal dos quatro textos – bromélia, anta, muriqui e vegetação – e aqueles que, a partir da repetição, fazem o texto progredir. A análise do corpus foi feita com o programa WordSmith Tools. O padrão revelado pelas estatísticas indica que a repetição de palavras não é um fenômeno aleatório. E que, portanto, a regra de redação jornalística pode ser relativizada.

Partindo do pressuposto de que um texto não é uma mera soma de frases, o que o diferencia de um não-texto é a sua textualidade, que se manifesta em diferentes graus. Segundo Beaugrande e Dressler[3], os sete fatores de textualidade são: a coesão (a relação de encadeamento de partes e de unidades); a coerência (o sentido atribuído por um interlocutor); a intencionalidade (o que o autor quer do leitor); a aceitabilidade (o que o leitor espera); a informatividade (os dados novos); a situcionalidade (os atores e o lugar da comunicação); e a intertextualidade (referência a outros textos).

Halliday e Hasan[4] afirmam que a propriedade semântica da coesão é a porta de entrada para a análise do “edifício” texto. Para eles existem cinco mecanismos coesivos: a referência (indicações de elementos internos ou externos); a substituição (relação entre A e B que passa a ser substituído), a elipse (apagamento); a conjunção (conectores em geral); e a coesão lexical (palavras que tendem a ficar juntas). Halliday & Hasan não negam, no entanto, que todos os demais fatores de textualidade apresentados por Beaugrande e Dressler também devem ser considerados.

A repetição de palavras pode ser tanto um recurso referencial como seqüencial do texto, portanto desejável. Um estudo realizado pela lingüista Irandé Costa Antunes (ANTUNES, 1996) em editoriais publicados entre 1950 e 1989 pelo Diário de Pernambuco comprovou que a repetição tem de fato um papel que deve ser considerado na construção textual. A pesquisadora afirma que a repetição é um fenômeno da reiteração natural que o fluxo do texto comporta, e aparece com uma regularidade discursiva incontestável por conta da continuidade e unidade requeridas.

O papel coesivo da repetição parece não ser considerado pela regra de redação jornalística da não-repetição de palavras amplamente difundida nas faculdades e nas empresas de comunicação. Esta regra faz parte do cerimonial de produção dos jornalistas brasileiros e está presente na literatura técnica dos profissionais que trabalham em veículos impressos de comunicação de massa. Vejamos três exemplos:

a – A Editora Abril adverte, em seu Manual de Estilo, que “a repetição desnecessária de palavras, como a dos cardápios, é enjoativa” (1990, p.35). Recomenda que em um parágrafo não seja usado o mesmo substantivo e nem o mesmo verbo: “Corte palavras, use sinônimos ou mude a frase”. (op.cit.)

b – O jornal Folha de São Paulo, em seu Manual de Redação, afirma que:

“uma antiga regra de estilo recomenda não repetir palavras ao longo de um texto. O emprego de vocabulário amplo enriquece de fato o texto de jornal, mas atenção: o uso de sinônimos para designar uma mesma coisa pode tornar o texto impreciso e confuso. Em muitos casos, não há mal em repetir palavras”. (2001, p.97)

c – O Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de São Paulo também é mais flexível em relação à repetição de palavras:

“Não transforme em preocupação obsessiva o receio de repetir palavras na mesma frase ou muito próximas entre si. Atente, no entanto, para uma série de verbos ou partículas cujo emprego abusivo chega, por vezes, a comprometer a matéria”. (1990, p.66)

O corpus

O corpus escolhido para analisar a ocorrência da repetição como mecanismo coesivo frente à regra jornalística da não-repetição de palavras é composto por textos que conquistaram o primeiro lugar nas quatro primeiras edições do Prêmio de Reportagem sobre Biodiversidade da Mata Atlântica (www.biodiversityreporting.org) promovido pela organização privada Conservation International. Além de  ser o principal prêmio de jornalismo ambiental do Brasil, a preocupação com as técnicas de redação está presente no processo de julgamento das reportagens. Outro motivo que me levou a escolher o objeto de estudo foi a minha familiaridade com os textos, pois sou um dos jurados desde a primeira edição.

Os cinco critérios que utilizamos no julgamento para selecionar os melhores textos são o estilo (se o artigo está bem escrito, se a redação é criativa e se o texto flui); o conteúdo informativo (se há a quantidade de informação necessária e se o tema foi bem investigado); as fontes (se foram apresentadas perspectivas diferentes); a “digestão” da informação (se a reportagem torna os temas científicos e complexos mais acessíveis ao leitor); e por último o tema (o foco principal deve ser a biodiversidade da Mata Atlântica).

A minha opção por reportagens sobre questões ambientais se deve, ainda, ao fato de que este é um tema emergente na imprensa brasileira e no meio acadêmico. Tanto é assim que participaram da quarta edição do Prêmio de Reportagem sobre Biodiversidade da Mata Atlântica 42 artigos publicados em 19 veículos de sete estados brasileiros; e no primeiro semestre de 2004 a Universidade Federal do Rio Grande do Sul introduziu uma disciplina regular na graduação de comunicação sobre jornalismo ambiental.

Dos quatro textos jornalísticos analisados, dois foram publicados em edições dominicais de jornais diários e dois em revistas mensais: Jardim de luxo sustenta tráfico de plantas foi publicado por Sérgio Duran e Karla Monteiro no jornal Folha de São Paulo em 17 setembro de 2000; Siga a anta: ela é um detetive ecológico, de Liana John, saiu no Jornal da Tarde, de São Paulo, em 6 de maio de 2001; Projeto Muriqui, parceria de futuro foi publicado por Fernanda Couzemenco em maio de 2002 na Revista Século, uma publicação regional que circula apenas no Espírito Santo; e A Floresta Renasce, de Carlos Fioravanti, Ricardo Zorzetto e Marcelo Ferroni foi publicado na edição de setembro de 2003 da revista Pesquisa Fapesp, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e com circulação nacional.

A repetição de palavras tem uma função coesiva quando ajuda a dar unidade e a fazer fluir um texto. Mas também é verdade que a repetição de palavras em demasia “suja” uma reportagem ao empobrecer o vocabulário. Então como modular a freqüência de palavras repetidas de modo a respeitar o estilo e a coesão textual? Qual o ponto de equilíbrio? O bom senso intuitivo do redator e do editor tem sido o critério utilizado pelos jornalistas. Mas  existe outro critério de decisão?

A Lingüística de Corpus, uma área de estudo emergente no Brasil, postula que a língua é um sistema probabilístico e que portanto a variação não é aleatória. Há um padrão que pode ser observado na própria linguagem, isto é, nos textos produzidos. O que justifica a observação empírica, segundo Sardinha (2004, p.32), é o fato de que aquilo que é incomum é percebido imediatamente, mas os eventos costumeiros do dia-a-dia são apreciados subliminarmente. Portanto esta “ecologia lingüística”, que procura observar o comportamento dos itens lexicais em seu habitat natural, pode ajudar na descrição da repetição de palavras. E fornecer pistas  de um possível critério baseado em um padrão de uso da língua. Observar a língua em uso e extensivamente são princípios importantes na Lingüística de Corpus.

Análise dos textos

A primeira observação feita nos quatro textos das reportagens premiadas sobre biodiversidade da Mata Atlântica foi realizada com apoio do software WordSmith Tools, desenvolvido em 1996 por Mike Scott na Universidade de Oxford na Inglaterra. Duas tabelas foram produzidas com os dados estatísticos. A primeira mostra a freqüência da palavra-tema em cada texto, o número de palavras distintas utilizadas, o número total de itens escritos e a riqueza lexical de cada reportagem. Na segunda tabela é comparada a freqüência do tema principal com a freqüência dos dois principais sinônimos para a palavra-tema utilizados em cada texto.

TABELA 1 – Freqüência da palavra-tema e riqueza lexical do texto

REPORTAGEM TEMA % PALAVRAS

DISTINTAS

TOTAL DE

ITENS

RIQUEZA

LEXICAL

Jardim de luxo Bromélia(s) 1,4 812 2.355 34,48%
Siga a anta Anta(s) 1,39 731 1.790 40,84%
Projeto Muriqui Muriqui(s) 1,46 965 2.461 39,21%
A floresta renasce Vegetação 0,89 921 2.357 39,08%

Riqueza lexical: é a razão vocábulo/ocorrência caculada pelo WordSmith Tools. Quanto maior a porcentagem, mais palavras diferentes há no texto (SARDINHA, 2004, p.94).

A Tabela 1 mostra que a palavra que representa o tema principal das reportagens é repetida diversas vezes no texto em uma freqüência ao redor de 1,4%, com exceção da palavra-tema da reportagem publicada na Revista Pesquisa Fapesp que ficou abaixo de 1%. Outra tendência é a riqueza lexical ao redor de 40%, com exceção do texto publicado no jornal Folha de São Paulo, Jardim de luxo, que apresentou uma razão vocábulo/ocorrência bem abaixo das demais reportagens. Para efeito de comparação, a riqueza lexical é de apenas 29% no artigo científico Pedossistemas da Mata Atlântica: considerações pertinentes sobre a sustentabilidade escrito em 2000 pelos pesquisadores Mauro Resende, João Luiz Lani e Sérvulo Batista de Rezende do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa (MG).

TABELA 2 – Freqüência da palavra-tema e dos seus dois sinônimos mais usados em cada texto

TEMA FREQ. % RANKING SINÔNIMOS FREQ. % RANKING
Bromélia 12 0,51 27º planta 7 0,30 44º
Bromélias 21 0,89 18º plantas 24 1,02 16º
Anta 9 0,50 29º animais 10 0,56 24º
Antas 16 0,89 14º ela(s) 8 0,44 32º
Muriqui 22 0,89 15º macacos 13 0,53 26º
Muriquis 14 0,57 23º primatas 7 0,28 47º
Vegetação 21 0,89 13º mata 10 0,42 31º
cobertura

vegetal

7 0,30 40º

A Tabela 2 mostra que além da palavra-tema, os dois principais sinônimos utilizados também são repetidos diversas vezes no texto em uma porcentagem semelhante. A recorrência de termos (repetição de palavras) é um procedimento lingüístico que estabelece entre segmentos do texto diversos tipos de relações semânticas e/ou pragmáticas, e assim  faz o texto progredir. Já o uso de sinônimos é uma forma remissiva que pode ocorrer para frente (catáfora) ou para trás (anáfora) dando unidade ao texto.

No título da reportagem Siga a anta: ela é um detetive ecológico, o pronome ela remete para a palavra-tema anta. Este é um exemplo de remissão anafórica. E a metáfora detetive ecológico também pode ser considerada uma substituição. A metáfora é utilizada como um recurso de remissão para fazer o texto fluir no segundo parágrafo do box Caminho feito de florestas:

“O trabalho de identificação dos ‘detetives ecológicos’ – que mostram os melhores caminhos entre fragmentos florestais, do ponto de vista da fauna – só se completa com o reflorestamento ou enriquecimento da vegetação nativa existente ao longo destes caminhos.”

No trecho acima a palavra fauna também remete a palavra-tema anta. Trata-se de um hiperônimo, a substituição da parte (anta) pelo todo (fauna). O mesmo ocorre com  espécie(s), mamífero e com o sinônimo mais utilizado no texto publicado pelo Jornal da Tarde: animais. Outro recurso é a elipse, ou substituição por zero: “(Elas) Saem com mais freqüência no crepúsculo ou à noite e normalmente (elas) não se aproximam de áreas habitadas pelo homem, embora (elas) possam se tornar razoavelmente dóceis quando (elas são) criadas em cativeiro”.

Na reportagem Jardim de luxo sustenta tráfico de plantas, os dois sinônimos mais utilizados para a palavra-tema bromélia(s) – planta e plantas – apresentaram o maior percentual de repetição entre as quatro reportagens: 1,32%. A própria repetição da palavra-tema foi a segunda mais alta: 1,4%. Este é o texto com a menor riqueza lexical. A redação da reportagem segue a determinação do Manual da Folha de São Paulo, que afirma que em muitos casos não há mal em repetir palavras. Em todo o texto, no entanto, a substituição também é usada como elemento de ligação textual, como no exemplo a seguir:

“Os paisagistas, principais fregueses, chegam a comprar lotes de cem plantas como a “tigresa” e a “imperial”, respectivamente Vriesia hieroglifa e Alcantarea imperialis.

Esta última é a preferida. Trata-se de uma bromélia gigante, que, ao florescer, atinge até 3 m de altura. A espécie é endêmica da serra dos Órgãos (Rio de Janeiro) – ou seja, é encontrada somente nessa região.”

O pronome demonstrativo esta no início da segunda frase, que se refere a palavra-tema da reportagem, tem duas funções. Uma de remissão anafórica para Alcantarea imperialis e a outra catafórica remetendo para bromélia gigante. Ele dá unidade e faz avançar o texto introduzindo na reportagem uma informação nova: a “bromélia gigante”. No exemplo acima, tigresa e imperial também são hiperônimos.

Na reportagem A floresta renasce a palavra-tema “vegetação” apresenta o menor índice de repetição em relação aos demais textos (0,89%), e ocupa o 13º lugar no ranking de palavras mais citadas em todo o texto, a posição mais alta das quatro palavras-tema. Apesar de ser a menos citada, em um trecho da reportagem a repetição foi usada sem necessidade:

“O PPMA, no qual já se investiram US$ 30 milhões, sobretudo em fiscalização e na consolidação de unidades de conservação, cobre uma área de 22 mil quilômetros quadrados de vegetação natural em 72 municípios no litoral e nos vales do Paraíba e do Ribeira, justamente onde a recuperação da vegetação natural foi mais expressiva.”

A segunda ocorrência do termo vegetação natural não tem função coesiva, e poderia ser substituída por zero (elipse) para dar mais fluência ao texto: …onde a recuperação (da vegetação natural) foi mais expressiva. A meu ver neste caso a repetição está sem função textual e valeria a regra jornalística da não-repetição de palavras.

O texto da reportagem Projeto Muriqui, parceria de futuro foi o que apresentou o maior número de sinônimos para a palavra-tema muriqui(s): macacos, primatas, bicho, macaco, mono, witaopa, animais, animal, bichos, monos, primata e símios.

No trecho a seguir, a palavra-tema aparece duas vezes no mesmo parágrafo, sem comprometer a fluência. No entanto, a segunda ocorrência poderia ter sido substituída por bicho ou animal. Na mesma passagem muriqui é substituído pela metáfora espécie-bandeira e pela palavra macacos:

“Ou, em última análise, o que se quer é fazer do muriqui uma espécie-bandeira, como são o mico-leão-dourado e a tartaruga marinha, para a preservação das demais espécies de macacos e de toda a mata atlântica do Espírito Santo. “Queremos aproveitar a simpatia despertada pelo muriqui para proteger o bioma como um todo”, afirma Lucena.”

Conclusão

Há casos de repetição da palavra-tema no mesmo parágrafo em todas as quatro reportagens analisadas: em três parágrafos no texto da Folha de São Paulo, em quatro parágrafos na reportagem publicada no Jornal da Tarde, em seis parágrafos no texto da Revista Século e em três parágrafos na reportagem da revista Pesquisa Fapesp.

Apesar destes casos de repetição do mesmo item lexical temático em um mesmo parágrafo, as estatísticas mostram que o número de repetições da palavra-tema tende a ser igual ao número de parágrafos de cada reportagem, como demonstra a Tabela 3. O texto da Folha de São Paulo é estatisticamente diferente dos demais. No entanto, o jornal utiliza sempre parágrafos bem curtos, às vezes com apenas uma informação, para facilitar a leitura. Se fossem feitos parágrafos normais, a reportagem da FSP também repetiria o padrão.

TABELA 3 – Relação entre parágrafos, tema e sinônimos

Reportagem Parágrafos Palavra-tema S1 S2 S1 + S2
Jardim de luxo 57 33 7 24 31
Siga a anta 24 25 10 8 18
Projeto Muriqui 41 36 13 7 20
A floresta renasce 22 21 10 7 17

Há um outro padrão estatístico observado nos quatro textos. A soma das repetições dos dois principais sinônimos para o tema central da reportagem é sempre inferior ao número de repetições da palavra-tema. Mas, se todos os sinônimos forem computados, a soma deles sempre será superior ao número de citações do item lexical temático.

Estes percentuais de repetição não podem ser extrapolados para reportagens em geral, e nem pretendo com eles transformar o ato da redação em um cálculo matemático. No entanto, os números indicam índices de uso em trabalhos premiados, portanto considerados como exemplos de bom jornalismo ambiental.

A intuição ocupa um lugar privilegiado no ato da criação textual. Mas a observação do uso das regras de redação em trabalhos jornalísticos de referência nos fornece uma pista de como regular a dose de repetições em um texto. A análise mostrou que a regra jornalística da não-repetição de palavras não pode ser considerada ao pé da letra, ela só vale quando a repetição de palavras não tem uma função coesiva no texto.

Considerando a lingüística textual, a regra jornalística analisada neste artigo poderia ser reescrita assim: O uso de sinônimos e de metáforas enriquece a narrativa. Mas a repetição do tema da reportagem e de seus sinônimos é fundamental para dar unidade e fazer fluir o texto. Na maior parte das vezes, usar uma vez a palavra-tema em cada parágrafo é suficiente para a coesão textual. A repetição não funcional de palavras deve ser evitada.

O texto jornalístico, como qualquer outro texto, precisa da repetição para manter a isotopia (mesmo tema). A própria repetição do mesmo item lexical, que aparentemente contraria a regra de redação jornalística, em certa medida aumenta a textualidade das reportagens, pois dá unidade e faz avançar o texto. A repetição sem função textual é que deve ser evitada. A análise das quatro reportagens feita neste artigo mostra que a regra de redação não pode ser aplicada de modo automático e mecânico. Ela deve considerar as relações entre as partes (frases e parágrafos), o contexto. Assim como a bromélia, a anta, o muriqui e a vegetação, o texto também tem vida.

Bibliografia

ANTUNES, Maria Irandé Costa Morais. Aspectos da coesão do texto (uma análise em       editoriais jornalísticos). 1ª ed. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1996.

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COUZEMENCO, Fernanda. Projeto Muriqui, parceria de futuro. Revista Século. Vitória,    maio de 2002.

DURAN, Sérgio e MONTEIRO, Karla. Jardim de luxo sustenta tráfico de plantas. Folha     de São Paulo. São Paulo, 17 de setembro de 2000.

FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e coerência textuais. 9. ed. São Paulo: Ática, 2004.

FIORAVANTI, Carlos, ZORZETTO, Ricardo e FERRONI, Marcelo. A floresta renasce.    Revista Pesquisa Fapesp. São Paulo, setembro de 2003.

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SARDINHA, Tony Berber. Lingüística de Corpus. 1ª ed. São Paulo: Manole, 2004.

VALENTE, André Crim. Coesão e Coerência em textos jornalísticos. Revista Comum. Rio de Janeiro, 2001.


[1] Este artigo foi originalmente produzido em outubro de 2004 como trabalho de conclusão da disciplina Estudos Lingüísticos do Texto I no curso de Especialização em Estudos Lingüísticos do Texto do Instituto de Letras da Ufrgs e posteriormente revisado para publicação pela Prof. Dra. Maria José Bocorny Finatto.

[2] Jornalista profissional graduado na Famecos/PUCRS em agosto de 1991.

[3] Os sete fatores de textualidade foram apresentados pelos lingüistas austríacos Robert de Beaugrande e Wolfgang Dressler em 1978 no livro Introdução à Lingüística Textual.

[4] O livro Cohesion in English foi publicado em 1976 pelo casal de lingüistas Michael Alexander Kirkwood Halliday e Ruqaiya Hasan.

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