A ameaça invisível da radiação

Roberto Villar Belmonte*

A principal ameaça ambiental ao planeta não são os alimentos contaminados nem as doenças infecciosas que tendem a proliferar mais rapidamente com o aquecimento global, mas os resíduos dos reatores nucleares e dos mísseis contaminados com urânio, alerta Asaf Durakovic, diretor do Uranium Medical Research Center (UMRC) com sede em Washington, nos Estados Unidos.

As potências nucleares, informa o pesquisador croata com cidadania norte-americana, têm atualmente o equivalente a 100 milhões de bombas de Hiroshima, o suficiente para destruir sete vezes o planeta Terra. Além disso, desde a Guerra do Golfo, em 1991, até hoje, foram lançados mísseis com urânio empobrecido com 3.061 toneladas de material radioativo, uma contaminação estimada em 1,3 x 1014 bequeréis. Ex-coronel do exército dos Estados Unidos, onde trabalhou como médico, Durakovic percebeu os riscos dos novos armamentos quando começou a atender os soldados norte-americanos que retornaram do Iraque contaminados com a radiação dos mísseis também utilizados no Conflito dos Balcãs, no Afeganistão e na segunda Guerra do Golfo. O urânio empobrecido é quase tão concentrado quanto o urânio natural e pode conter traços de plutônio.

Esses mísseis são feitos com isótopos de urânio para aumentar o poder de penetração. Eles são capazes de perfurar com facilidade qualquer tanque de guerra. No entanto, quando explodem, espalham uma poeira radiativa na atmosfera. A contaminação acontece principalmente quando esses resíduos são inalados. Através do sistema respiratório, o urânio chega até os ossos e acaba comprometendo o sistema imunológico.

A equipe do Uranium Medical Research Center, uma ONG criada depois que Durakovic perdeu o emprego nas Forças Armadas, analisou a contaminação radioativa no Afeganistão. “ Encontrei U236 em todos os meus pacientes. Esse isótopo não existe na natureza. Foi produzido pelo homem nestes 15 anos de guerra nuclear”, explica o médico e pesquisador Asaf Durakovic em entrevista ao jornal Extra Classe.
Inverno nuclear

Para o especialista, a grande acumulação de lixo radioativo nos últimos 60 anos está ameaçando a vida na Terra. Segundo Durakovic, existe meio milhão de metros cúbicos de lixo radioativo de alto nível gerado na produção de armas nucleares e mais de 40 mil toneladas de combustível gasto nos reatores nucleares.

Todas alternativas de armazenagem destes resíduos radioativos utilizadas até hoje são inseguras, alerta Asaf Durakovic, um dos participantes do IV Fórum Internacional de Mídia sobre Proteção da Natureza, Proteção da Saúde, promovido pela associação cultural Greenaccord de 4 a 7 de outubro em Monte Porzio Catone, nas proximidades de Roma.

Em 1957, recorda, houve uma explosão em Kishtym, nos Montes Urais, devido ao calor gerado pela grande concentração de resíduos radioativos em apenas um lugar. Durakovic classifica como uma grande bobagem a proposta de lançar depósitos nucleares ao espaço devido ao custo e ao risco de explosão na decolagem do foguete.

Depósitos marítimos já foram utilizados no passado, ressalta, mas não são mais aceitos. “Todos os depósitos hoje existentes são inseguros, verdadeiras bombas-relógio”, adverte o ex-coronel especialista em radiação ionizante. Para ele, a situação é ainda pior nos países em desenvolvimento.

“A Universidade de Ibadan ressaltou, em recente relatório, a total ineficiência do depósito de lixo radioativo na Nigéria”, informa Durakovic. Ele ressalta ainda que os testes nucleares realizados na terra e no mar também deixaram, e ainda deixam, grande quantidade de resíduos com enorme dano ambiental.

“Estamos com um grande problema, mas não percebemos, pois ele é invisível. É preciso parar de produzir essas armas radioativas. A produção não pára porque existem muitos interesses econômicos envolvidos. A retirada e a estocagem do lixo nuclear movimentaram nos EUA mais de 200 bilhões de dólares nos últimos dez anos”, relata.

A energia nuclear também não pode nunca ser vista como uma alternativa para resolver o problema do aquecimento global, ressaltou ainda Asaf Durakovic, da ONG Uranium Medical Research Center, pois pode causar um efeito contrário, um inverno nuclear, devido ao enorme risco de contaminação nuclear. (R.V.B.)

Para saber mais: www.umrc.net

* Este texto é parte da reportagem especial Os males do século 21 que publiquei no jornal Extra Classe 108 em novembro de 2006, disponível no site do Sinpro/RS: http://www.sinprors.org.br/extraclasse/nov06/index.asp

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