Em Hiroshima foi assim…

Atônito com as notícias que chegam do Japão desde a sexta-feira passada, reli nos últimos dias o livro Hiroshima, de John Hersey, que descreve o horror da bomba atômica a partir da experiência de seis sobreviventes. Fiquei ainda mais aparvalhado com os riscos da fissão nuclear. Alguns trechos da reportagem, publicada em 1946, considerada uma das mais importantes do século 20:

Uns vinte homens e mulheres estavam no banco de areia. O sr. Tanimoto aproximou-se e os convidou a embarcar. Eles não se mexeram: estavam fracos demais para se levantar. O pastor estendeu os braços e tentou puxar uma mulher pelas mãos, porém a pele se desprendeu como uma luva. Profundamente abalado, o sr. Tanimoto teve de se sentar por um instante, ao fim do qual entrou na água e, embora fosse um homem miúdo, carregou vários feridos para a chalana. Todos estavam nus e tinham as costas e o peito pegajosos, frios e úmidos. O reverendo se lembrou das grandes queimaduras que tinha visto durante o dia: amarelas a princípio, depois vermelhas e intumescidas, com a pele solta, e, à noite, supuradas e fétidas. Com a montante da maré a haste de bambu se tornara curta demais, e ele teve de usá-la como remo na maior parte da travessia. Chegando ao lado oposto, carregou os corpos viscosos ribanceira acima. E repetia para si mesmo, sem cessar: “São seres humanos”. Precisou fazer três viagens para transportá-los até a barranca. Então resolveu descansar no parque. (página 51)

(Semanas depois da explosão…)

O capim já escondia as cinzas, e flores silvestres despontavam em maio ao esqueleto da cidade. A bomba não só deixara intatos os órgãos subterrâneos das plantas como os estimulara. Por toda parte havia centáureas, iúcas, quenopódios, ipoméias, hemerocales, beldroegas, carrapichos, gergelim, capim e camomila. Principalmente num cículo do centro o sene vicejava numa extraordinária regeneração, não só entre os restos crestados da mesma planta, com em outros pontos, em meio aos tijolos e através das fendas do asfalto. Parecia que o mesmo avião que jogara a bomba soltara também uma carga de sementes de sene. (página 75)

No dia 17 de setembro desabou um aguaceiro, seguido de um tufão, e a água subiu mais e mais. Assustados, o sr. Okuma e o dr. Fujii escalaram a montanha e se abrigaram na casa de um camponês. (Em Hiroshima a água destruiu o que a bomba deixara em pé – arrastou pontes que resistiram à explosão, alagou ruas, minou alicerces de edifícios que ainda se mantinham -, e dezesseis quilômetros a oeste o hospital militar Ono, onde uma equipe de especialistas da Universidade Imperial de Kyoto estudava os efeitos retardados da radiação, deslizou por uma bela encosta coberta de pinheiros e mergulhou no Mara Interior, afogando a maioria dos estudiosos e dos portadores da misteriosa moléstia.) (página 77)

Na época turbulenta de fome e crime que se seguiu ao bombardeio, os ladrões arrombaram dois depósitos vizinhos à casa de sua mãe e levaram muitos bens preciosos, como uma caixa de laca que o imperador dera a seu avô, um estojo antigo de pincéis e tinta de escrever e um quadro clássico com a figura de um tigre que valia, sozinho, 10 milhões de ienes, ou mais de 25 mil dólares. (página 109)

(Quarenta anos depois da explosão…)

O pastor comia demais. Levantava-se diariamente às seis da manhã e passeava durante uma hora com seu cachorrinho, Chiko. Estava diminuindo o ritmo. Sua memória, como a do mundo, começava a falhar. (página 160)

Para escrever sua reportagem sobre a devastação de Hiroshima, John Hersey esteve na primeira cidade destruída pela bomba atômica entre 25 de maio a 12 de junho de 1946. Decidiu descrever a tragédia através do olhar de seis hibakusha (pessoa afetada pela explosão). No final de agosto do mesmo ano o texto foi publicado na revista The New Yorker. Quarenta anos depois, o jornalista voltou ao Japão para contar o que havia acontecido com seus entrevistados. O livro publicado no Brasil em 2002 pela Companhia das Letras reúne os dois textos. John Hersey  até hoje ajuda a refrescar a memória do mundo. (Roberto Villar Belmonte)

Informações atuais sobre a cidade de Hiroshima: http://www.pcf.city.hiroshima.jp/hpcf/english/index.html

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