Setor empresarial engajado na preparação da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável

Herdeira das conferências da ONU que trataram sobre Ambiente Humano (72) e Meio Ambiente e Desenvolvimento (92), ambas lideradas pelo empresário canadense Maurice Strong, a Rio + 20 que será realizada no Brasil em junho de 2012, conduzida pelo diplomata chinês Sha Zukang, mobiliza vanguarda empresarial.

Por Roberto Villar Belmonte

Assim como ocorreu antes da Rio 92, diversos eventos serão realizados no Brasil nos próximos meses para discutir os temas propostos pela Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) que acontecerá no Rio de Janeiro (RJ) entre os dias 4 e 6 de junho de 2012.

As oportunidades de negócio da Economia Verde, assunto central da Rio + 20, mobilizam o setor empresarial. Entre 27 e 29 de setembro de 2011, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) promove no Rio de Janeiro (RJ) o 4º Congresso Internacional Sustentável.

Visão 2050: agenda para uma nova sociedade será o tema do encontro empresarial. O CEBDS pretende construir, em parceria com os participantes do Sustentável 2011 – ONGs, empresas, governo e academia –, a agenda brasileira da sustentabilidade utilizando a metodologia do relatório Visão 2050 lançado no final do ano passado.

Nas discussões do Comitê Preparatório da Rio + 20, o setor empresarial é representado na ONU por uma organização denominada Business Action for Sustainable Development, composta pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), pelo Global Compact e pelo International Chamber of Commerce (ICC).

Empresas ansiosas

“As últimas conferências de Biodiversidade e de Mudanças no Clima já apontaram a ansiedade de especialistas, empresas, acadêmicos e ONGs por ferramentas de medição de impacto e de dependência da economia em relação ao meio ambiente”, afirmou a presidente do CEBDS, Marina Grossi, à revista Brasil Sustentável (março/11).

– As empresas mais sérias e com visão de futuro também estão ansiosas, porque elas já entenderam que não podem prejudicar aquilo de que dependem para existir. Ignorar o valor econômico desses ativos nos prejudicou muito ao longo dos anos, mas é hora de mudar. E, quanto mais demorarmos, mais caro será.

Desde a Cúpula da Terra, destacou Marina Grossi, “a mudança mais impactante é o foco econômico que a discussão está ganhando, e isso pode ser representado pela presença das empresas nas discussões. Em 92, elas nem participavam dos debates. Hoje, todas as grandes empresas estão atentas às discussões sobre desenvolvimento sustentável e meio ambiente”.

Atualmente a participação das grandes empresas nas negociações da ONU realmente é maior e mais organizada, nisso tem razão a atual dirigente do CEBDS. No entanto, representantes do setor empresarial sempre estiveram presentes e exerceram um importante papel nas conferências ambientais das Nações Unidas.

Conselho de notáveis

Vale lembrar que o secretário geral das conferências da ONU sobre ambiente humano, realizada em Estocolmo em 1972, e sobre meio ambiente e desenvolvimento, a Rio 92, foi o empresário da indústria canadense de petróleo Maurice Strong, ex-executivo de diversas empresas, entre elas a Dome Petroleum e a PetroCanada.

Maurice Strong – o primeiro presidente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês) criado em 1972 – convidou em 1990 o empresário suíço Sthephan Schmidheiny para atuar como seu conselheiro em indústria e comércio no processo de elaboração da Agenda 21.

Schmidheiny convocou cerca de 50 líderes empresariais para dar conta da tarefa. Dois brasileiros participaram do Business Council for Sustainable Development, Eliezer Batista da Silva (pai de Eike Batista), que presidia a Rio Doce International S.A., e Erling Lorentzen, da Aracruz Celulose S.A., atual presidente de honra do CEBDS.

Acompanhei como repórter o lançamento do relatório feito pelos líderes empresariais, divulgado no Rio de Janeiro (RJ) dias antes do início da Cúpula da Terra. Mudando o Rumo – Uma Perspectiva Empresarial Global sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente foi publicado na época em português pela Editora da Fundação Getúlio Vargas.

“O progresso em direção ao desenvolvimento sustentável faz sentido como uma boa atividade empresarial, pois cria vantagens competitivas e novas oportunidades. Requer, todavia, mudanças de longo alcance nas atitudes das empresas e novas maneiras de fazer negócios”, dizia a declaração assinada em 1992 por 48 grandes empresários.

Produção mais limpa

A Agenda 21 – adotada durante a Rio 92 – identificou nove grupos principais que deveriam ser fortalecidos, um deles foi o “comércio e a indústria”, tratado no Capítulo 30, onde duas áreas de programas foram detalhadas: a promoção de uma produção mais limpa  e a promoção da responsabilidade empresarial.

Entre ambientalistas e empresários, predominava há 20 anos a desconfiança mútua. Quase nenhum diálogo havia. Uma boa descrição do modo como as empresas brasileiras encaravam as questões ambientais na época da Rio 92 está no livro O Bom Negócio da Sustentabilidade, de Fernando Almeida, ex-presidente do CEBDS:

No universo empresarial, a dimensão ambiental era vista, na melhor das hipóteses, como um mal necessário. No máximo, submetiam-se aos controles estabelecidos pelo poder público. Com freqüência comandados por pessoas sem poder real na estrutura da organização, sistemas de controle da poluição raramente desfrutavam das mesmas atenções dispensadas aos sistemas de produção e de comercialização. Estações de tratamento de despejos industriais eram desligadas nos fins de semana, para economizar energia. Insumos indispensáveis a seu funcionamento deixavam de ser comprados, “por esquecimento”. As empresas mais pressionadas pela opinião pública buscavam tomar “banhos de verde”, recorrendo às pressas à ajuda de especialistas em marketing, na tentativa de mudar a imagem comprometida por décadas, às vezes séculos, de descaso ambiental. Faltava às empresas formular seu papel no mundo da sustentabilidade.

Um mundo onde todos ganhem

Esta postura reativa das empresas descrita por Fernando Almeida aumentava a desconfiança e a má vontade dos ambientalistas em relação à indústria. Aos poucos a produção mais limpa e a responsabilidade empresarial – recomendadas na Agenda 21 – foram sendo disseminadas e novos regramentos de mercado surgiram.

Duas entidades nascidas no final do século passado têm ajudado a disseminar as novas questões da sustentabilidade entre o empresariado que atua no País, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (1997) e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (1998).

Mas ainda há muito por fazer. Construindo um Mundo onde Todos Ganhem – A Vida depois da Guerra da Economia Global é o título de um livro famoso lançado há 15 anos por Hazel Henderson, mas poderia ser usado agora para explicar o desafio que o secretário geral da Rio + 20, o diplomata chinês Sha Zukang, tem pela frente.

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