A agroecologia segundo Gervásio Paulus

“Eu não entendo a agroecologia como uma forma particular de fazer agricultura, mas sim como um campo de conhecimento que tem a pretensão de ter um status de ciência. Ela aporta estudos, metodologias, princípios e fundamentos para estilos de agricultura de base ecológica”, explica Gervásio Paulus, diretor técnico da Emater/RS e presidente do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia, que aconteceu em Porto Alegre (RS) entre os dias 25 e 28 de novembro de 2013. A seguir a íntegra da entrevista realizada duas semanas antes do evento para a edição de dezembro do jornal Extra Classe.

Por Roberto Villar Belmonte

Blog do Villar: Quando a agroecologia começou a ser vista como prioridade da Emater/RS?
Gervásio Paulus:
No Governo Olívio (1999-2002) houve uma orientação estratégica no sentido de ter um foco em agroecologia. Já existiam experiências pontuais. Mas não um esforço institucional intensivo e concentrado. Naquele momento se propôs uma mudança de fato da missão institucional e do objetivo da Emater/RS, dentro de uma visão estratégica. Houve um número muito grande de diagnósticos rápidos participativos. Este trabalho metodológico de diagnósticos gerou processos. Isto é uma coisa importante para a agroecologia, porque processos ficam. Depois daquele governo tivemos um período de vacas magras.

Gervásio Paulus, presidente do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia - Crédito: Kátia Marcon - Emater/RS
Gervásio Paulus, presidente do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia – Crédito: Kátia Marcon – Emater/RS

Blog do Villar: Qual foi o pior momento?
Gervásio:
No Governo Yeda (2007-2010). A agroecologia não era bem vista. Perdeu-se massa crítica. Em 2009 saíram 400 pessoas de uma única vez. Estamos agora em um processo de renovação muito grande. Temos em torno de 570 novos técnicos, a maioria extensionistas, que entraram a partir de 2011. No Governo Tarso, a agroecologia voltou a ser considerada uma diretriz estratégica dentro da Emater/RS.

Blog do Villar: Como assim?
Gervásio:
Desenvolvemos iniciativas para apoiar a transição agroecológica. Entendemos o rural além do agrícola. Nossa visão pressupõe valorizar e fortalecer a agricultura familiar. Ela não é só um negócio, é também um modo de vida. Em comunidade. Temos sete núcleos de apoio à gestão de cooperativas. Entendemos que é um fator fundamental para o sucesso deste modelo de transição que eu chamo de ambientalização do rural. Para nós não é um modismo, mas um processo permanente. Aí entra o trabalho com foco em agroecologia. Temos um modelo amplamente hegemônico de agricultura convencional, que é o agronegócio. Temos que avançar para níveis crescentes de ecologização, de sustentabilidade.

Blog do Villar: Mas esta não é uma visão de consenso no Governo Tarso…
Gervásio:
O Estado brasileiro exporta suas contradições. No âmbito nacional, há uma procura grande de países da América Latina e da África para conhecer e adotar políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Por outro lado o Brasil também tenta levar o modelo da revolução verde para a África através da Embrapa. Aqui no Rio Grande do Sul também existem contradições. Um exemplo é a utilização de milho transgênico no programa Troca-Troca de Sementes. Este milho BT é uma planta inseticida alterada geneticamente para controlar a lagarta do cartucho. No entanto, temos controle biológico para a mesma lagarta, através de uma vespa, com viabilidade plena de utilização inclusive em grandes lavouras.

Recentemente me passaram os números do Troca-Troca. Dos 282 mil sacos (de 20 quilos) de sementes de milho, 29 mil foram transgênicas, em torno de 10%. É um problema, compromete a biodiversidade, mas os números mostram também que existe um campo grande para trabalhar outras tecnologias. Não é uma batalha perdida. Tem espaço para trabalhar alternativas. O que dificulta muito o avanço da transição para trabalhar com tecnologias de base ecológica é principalmente o preço da soja, que está em um patamar histórico muito alto.

Blog do Villar: A agroecologia voltou a ser prioridade com o Governo Tarso?
Gervásio
: Voltou para pauta, voltou para mesa. Evidentemente que isto é uma disputa interna também dentro do governo. Tem gente que não concorda. Acha que é uma coisa inviável e utópica. Mas trouxemos de volta a discussão e o debate, a pauta de trabalhar isso tanto internamente, na formação, como com os agricultores.

Blog do Villar: Comparando com a Emater/RS encontrada no início do Governo Olívio, em 1999, como está agora do ponto de vista da agroecologia?
Gervásio:
Havia um estigma em relação à agroecologia naquele período. Hoje é um pouco mais tranquilo, há menos preconceito em relação ao tema. Além disso, atualmente há também políticas públicas federais que estimulam mais a agroecologia. Posso citar dois exemplos. O primeiro é o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo).

Blog do Villar: O Planapo pode tirar a agroecologia de um gueto e coloca-lá no mercado?
Gervásio:
Talvez a palavra mercado não seja a melhor. Para mim o Planapo coloca a agroecologia em um patamar de visibilidade e de reconhecimento semelhante a outras políticas públicas voltadas à agricultura. Pela primeira vez ela tem este status. Cinco ministros estavam presentes no lançamento feito pela presidenta Dilma.

Blog do Villar: No Rio Grande do Sul, a liberação dos recursos do Planapo passará pela Emater/RS?
Gervásio:
Não necessariamente o projeto tem que ser elaborado pela Emater. Pode ser feito por cooperativas ou outras entidades. A tendência é que a maior parte passe pela Emater/RS.

Blog do Villar: Qual o segundo exemplo de política pública federal?
Gervásio:
O novo Código Florestal. Ele criou o Cadastro Ambiental Rural (CAR) que será implantado a partir de 2014. Considero que também é um avanço porque pela primeira vez será possível mapear o que existe. Quem não se adequar não terá crédito.

Blog do Villar: E no Rio Grande do Sul?
Gervásio:
Existe o Programa de Agricultura de Base Ecológica (PAB), com metas muito tímidas.

Blog do Villar: A agroecologia poderá um dia alimentar toda a população do Rio Grande do Sul?
Gervásio:
Eu não entendo a agroecologia como uma forma particular de fazer agricultura, mas sim como um campo de conhecimento que tem a pretensão de ter um status de ciência. Não é ela, a agroecologia, que vai garantir a produção. Ela é uma área de conhecimento que aporta estudos, metodologias, princípios, fundamentos para estilos de agricultura de base ecológica, com diferenças de denominações, pode ser orgânica, como é mais conhecida, biológica, permacultura, biodinâmica. A agroecologia pode ofertar ferramentas para que se consiga produzir alimentos mais saudáveis, mais sadios. E para ser muito franco e honesto, não acredito que isso ocorra no curto e médio prazo. Por isso falo muito em transição. Não vamos acabar de uma hora para outra com 1,1 milhão de hectares de monocultivo de milho, nem com mais de quatro milhões de hectares de soja.

Blog do Villar: É possível a convivência entre uma agricultura empresarial com uma agricultura de base ecológica?
Gervásio:
O agronegócio tem o seu papel e a sua importância. O que temos que fazer, independente dele, é fortalecer e valorizar a agricultura familiar, que é a maior base social no campo, com 380 mil propriedades rurais no Rio Grande do Sul, segundo o IBGE. Vejo aí potencial para a agroecologia. Quando falo em transição não posso ser mais realista que o rei. Não vamos deixar de usar agrotóxicos no curto prazo, mas temos que trabalhar para isso. Colocando metas claras de redução. Temos que de forma crescente ecologizar os sistemas produtivos. No curto prazo vamos ainda continuar convivendo com agrotóxicos e monocultivos.

Blog do Villar: Se o trabalho iniciado no Governo Olívio tivesse continuado a situação seria outra?
Gervásio:
Estaríamos em um estágio bem mais avançado. Sem a menor dúvida. Principalmente porque não estamos trabalhando apenas com questões tecnológicas imediatas, mas com processos. Começa pela formação. Tu não forma massa crítica pensante que tenha um outro paradigma de uma hora para outra.

“Este olhar para as diferenças regionais e culturais é o que a agroecologia procura valorizar. É diferente do modelo que tenta homogeneizar a agricultura com uma visão industrial da natureza. A agricultura não é uma produção fordista.”

Blog do Villar: Existe pacote agroecológico como na agricultura empresarial ou cada situação exige uma solução diferente?
Gervásio:
A agroecologia não tem um pacote único. Ao invés de soluções homogêneas, ela procura aplicar princípios e conceitos generalizáveis traduzidos em formatos tecnológicos específicos e adequados às distintas realidades e diversidades regionais. A experiência dos assentamentos mostra isso. Colonos acostumados a plantar milho e feijão na barranca do rio Uruguai foram assentados em Aceguá e Bagé, no extremo sul do Estado, e quebraram a cara. É outro bioma, outro regime de chuva. Bateram a cara até se tocar que tem uma outra lógica por trás do pecuarista familiar. Ele tem uma racionalidade. Só que é diferente. Ele é mais avesso ao crédito. Este olhar para as diferenças regionais e culturais é o que a agroecologia procura valorizar. É diferente do modelo que tenta homogeneizar a agricultura com uma visão industrial da natureza. A agricultura não é uma produção fordista.

Blog do Villar: Quantos extensionistas têm a Emater/RS atualmente?
Gervásio:
A Emater tem hoje 1.600 extensionistas. Cerca de 30% estão capacitados para trabalhar com uma visão agroecológica. Existem trabalhos nas nossas 12 regiões administrativas. Como a pecuária familiar na região de Bagé. Em Santa Maria tem um trabalho muito interessante na Quarta Colônia com sistemas agroflorestais e controle biológico. Na região de Soledade estamos fazendo um trabalho de inclusão social e produtiva em função da pobreza extrema que existe ali em áreas marginais, nas piores terras, nos chamados fundões. Trabalhamos com tecnologias socialmente adaptadas, como sementes crioulas, produção de subsistência. Começamos com 6 mil famílias e estamos ampliando para 12 mil famílias. Na região de Caxias temos um trabalho articulado com o Centro Ecológico com uva. Em Vacaria tem as pequenas frutas. Em Pelotas a pecuária orgânica.

Blog do Villar: Tudo que é orgânico é agroecológico?
Gervásio:
Posso ser acusado de purista, mas procuro distinguir. Orgânico não necessariamente é agroecológico. Por exemplo, um monocultivo orgânico em larga escala sem compromisso social. Para ser agroecológico tem que ter múltiplas dimensões, um olhar social, tem que necessariamente trabalhar a diversidade. A tecnologia tem um papel fundamental, mas não é só tecnologia. A experiência agroecológica incorpora, em menor ou maior grau, princípios e fundamentos, mas não se restringe só a não usar veneno. Passa por organização social, reconhecer o modo de vida, as formas de cultura. Muita coisa disso se perdeu.

Blog do Villar: Em que estágio está a agroecologia e a produção orgânica?
Gervásio:
Em um momento de afirmação. Tem tudo para crescer. Passou o estágio inicial quando havia ainda um estigma ideológico, diziam que era coisa dos vermelhinhos do PT, coisa da esquerda. Claro que tem um componente de sensibilidade social e de organização. Hoje ninguém mais questiona. Um exemplo emblemático é o da Ecocitrus de Montenegro. Há 14 anos, eram vistos com desconfiança, como meia dúzia de malucos. Hoje são 130 famílias produzindo e exportando suco de laranja orgânico. Produzindo óleo essencial, ou seja, agregando valor. Com consciência ambiental. Com responsabilidade ambiental.

Blog do Villar: A agroecologia é um nicho de mercado?
Gervásio: A agroecologia não pode ser vista como nicho de mercado. Este é o elemento transformador da agroecologia, ela prega em sua essência a equidade social, é um dos seus princípios. Para se ter uma agricultura sustentável é preciso construir relações e sociedades sustentáveis. Tenho que construir contextos de sustentabilidade nos quais as pessoas tenham maior grau de autonomia e de empoderamento.

Blog do Villar: Mas na prática o orgânico ainda é um nicho de mercado. Como expandir a produção e o consumo?
Gervásio:
Reconheço. Hoje ainda é um pequeno grupo da classe média que tem mais acesso, que se dá conta da importância, que tem acesso à informação. Passa por expandir a base de produção. Tem que sair dos quintais e das hortas e ir para as lavouras da agricultura familiar. As feiras ecológicas tem um papel muito importante. Mas é preciso ir além das feiras. Tem que pensar como produzir milho sem transgênico e sem veneno. Como produzir feijão. Galinha caipira. Transformar milho em proteína, sem hormônio. O potencial da avicultura colonial é enorme. Não é uma mudança brusca de curto prazo. São necessárias pelo menos três gerações para fazer a transição agroeocológica. Uma que faz a mudança, com um custo muito alto. A segunda que vai nos superar e a terceira com os agroecossistemas redesenhados funcionando com novas relações.

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